Na primeira edição do exame, em 2025, apenas cerca de 60% dos estudantes avaliados alcançaram o nível de proficiência esperado. Por Jeniffer Gularte, Júlia Cople, Kaio Magalhães, Lucas Altino, Luis Felipe Azevedo e Patrick Chaia. Publicado em O Globo, em 07/11/2026
A abertura de novas faculdades de Medicina por grupos hospitalares e universidades avança no país, em meio a questionamentos sobre a qualidade da formação. Na sexta-feira, no mesmo dia em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a lei que torna o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) requisito para que novos profissionais obtenham registro e possam exercer a profissão, o Ministério da Educação (MEC) autorizou o curso da Rede D’Or, no Rio de Janeiro. A faculdade terá 100 vagas anuais, mensalidades entre R$ 13 mil e R$ 14 mil e pretende selecionar os primeiros alunos ainda este ano, para iniciar as aulas em janeiro de 2027. A PUC-Rio também aguarda autorização para abrir sua graduação, enquanto hospitais e instituições de outras regiões têm projetos em andamento.
O ministro da Educação, Leonardo Barchini, afirma que o exame permitirá ao governo acompanhar a formação e orientar a supervisão das instituições:
— Vamos saber onde aumentar vagas, onde reduzir e qual instituição fechar.
Avaliação ruim
Na primeira edição do Enamed, em 2025, apenas cerca de 60% dos estudantes avaliados alcançaram o nível de proficiência esperado. Para Estevão Toffoli, presidente da Associação Brasileira de Educação Médica (Abem), no entanto, o resultado dos alunos não pode ser o único parâmetro para avaliar as faculdades.
— Uma fotografia só não é um filme inteiro — afirma, defendendo que o MEC considere também a estrutura das instituições, o corpo docente, o modelo pedagógico e os campos de prática.
Já a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), que vinha fazendo críticas ao Enamed, avaliou positivamente a sanção da lei que torna o exame obrigatório para o exercício da Medicina. Em nota, a entidade considerou acertada a decisão de aplicar eventuais punições aos cursos apenas a partir dos resultados de 2027, por entender que a regra dá segurança jurídica às instituições. Também elogiou a aplicação das provas em três etapas ao longo da graduação, mas defendeu que metodologia, pesos e critérios de proficiência sejam divulgados com antecedência.
Mário Scheffer, professor da Faculdade de Medicina da USP e pesquisador da área, considera o exame necessário, mas diz que o governo precisa rever os critérios de abertura de novos cursos e avaliar as mais de 500 escolas em funcionamento. A situação, afirma, é “muito séria”.
A faculdade da Rede D’Or será mantida em parceria com o Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (Idor). A estrutura acadêmica ficará em um prédio no Centro do Rio, com laboratórios para o ensino básico. As atividades práticas estão previstas em hospitais da rede, como o Quinta D’Or e unidades da Perinatal, e também em equipamentos do SUS, entre eles os hospitais Andaraí e Souza Aguiar e unidades de atenção básica. A presidente do Idor, Fernanda Moll, afirma que a formação combinará experiências em hospitais de alta complexidade, na rede privada e na atenção básica, para aproximar os estudantes das diferentes realidades da saúde brasileira.
O Idor coordena mais de 30 programas de residência médica no Rio e reúne mais de 150 pesquisadores com doutorado. A instituição já produziu mais de 2,5 mil artigos científicos, e a proposta é que todos os alunos da graduação participem de atividades de iniciação científica. A formação também poderá incluir experiências em unidades da Rede D’Or em outros estados.
A entrada do grupo faz parte de um movimento nacional de instituições hospitalares na graduação médica. Em abril, ao menos nove cursos ligados a hospitais estavam abertos ou autorizados no país. Entre eles estão os do Einstein e do Sírio-Libanês, em São Paulo, do Moinhos de Vento, em Porto Alegre, e do Pequeno Príncipe, em Curitiba. As Santas Casas de Belo Horizonte e de Campo Grande também têm projetos: a primeira espera iniciar as aulas em 2028; a segunda ainda está na fase de estudos.
Scheffer questiona se a vinculação a grandes hospitais é, por si só, garantia de qualidade acadêmica:
— Não há evidência de que esses cursos sejam melhores do que os de outras instituições privadas.
Para ele, a formação depende de professores, currículo e organização dos cursos. O pesquisador critica ainda as regras específicas criadas pelo MEC em 2024 para autorizar graduações ligadas a instituições hospitalares. Elas dispensam alguns critérios exigidos de outras faculdades privadas, como a relação entre médicos e população. A ABMES também questiona a diferença de exigências. O ministério afirma que, nesses casos, a autorização considera a qualidade dos serviços e a disponibilidade de equipamentos públicos para a formação.
No Rio, a PUC aguarda autorização formal do MEC para abrir seu curso, que recebeu conceito máximo, nota 5, na avaliação de outubro. A expectativa é começar as aulas no primeiro trimestre de 2027. A universidade fechou parceria com a Secretaria Municipal de Saúde, que disponibilizou 836 leitos da rede do SUS para as atividades acadêmicas, incluindo hospitais como Miguel Couto e Ronaldo Gazolla, além de UPAs e clínicas da família.